Na Floresta


Gibran

Na floresta não existe nem rebanho, nem pastor.
Quando o inverno caminha, segue seu distinto curso como faz a primavera.
Os homens nasceram escravos daquele que repudia a submissão.
Se ele um dia se levanta, lhes indica o caminho, com ele caminharão.
Dá-me a flauta e canta! 
O canto é o pasto das mentes. 
E o lamento da flauta perdura mais que rebanho e pastor.

 Na floresta não existe ignorante ou sábio.
Quando os ramos se agitam, a ninguém reverenciam.
O saber humano é ilusório como a cerração dos campos
que se esvai quando o sol se levanta no horizonte.
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o melhor saber, 
e o lamento da flauta sobrevive ao cintilar das estrelas.

Na floresta só existe lembrança dos amorosos.
Os que dominaram o mundo e oprimiram e conquistaram, 
seus nomes são como letras dos nomes dos criminosos.
Conquistador entre nós é aquele que sabe amar.
Dá-me a flauta e canta! 
E esquece a injustiça do opressor.
Pois o lírio é uma taça para o orvalho e não para o sangue.

Na floresta não há crítico nem sensor.

Se as gazelas se perturbam quando avistam companheiro, a águia não diz: ‘Que estranho’.
Sábio entre nós é aquele que julga estranho apenas o que é estranho. 
Ah, dá-me a flauta e canta! 
O canto é a melhor loucura e o lamento da flauta sobrevive aos ponderados e aos racionais.

Na floresta não existem homens livres ou escravos.
Todas as glórias são vãs como borbulhas na água.
Quando a amendoeira lança suas flores sobre o espinheiro,
não diz: ‘Ele é desprezível e eu sou um grande senhor’
Dá-me a flauta e canta!
Que o canto é glória autêntica e o lamento da flauta sobrevive ao nobre e ao vil.

Na floresta não existe fortaleza ou fragilidade.
Quando o leão ruge não dizem: ‘Ele é temível’.
A vontade humana é apenas uma sombra que vagueia no espaço
do pensamento e o direito dos homens fenece como folhas de outono.
Dá-me a flauta e canta! 
O canto é a força do espírito e o lamento da flauta sobrevive ao apagamento dos sóis

Na floresta não há morte nem apuros.
A alegria não morre quando se vai a primavera. 
O pavor da morte é uma quimera que se insinua no coração.
Pois quem vive uma primavera é como se houvesse vivido séculos. 
Dá-me a flauta e canta! 
O canto é o segredo da vida eterna e o lamento da flauta permanecerá após findar-se a existência.

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