Bruxas: As Mulheres em Chamas

Durante mais de 300 anos, a mesma Europa que viu nascer a Idade Moderna e presenciou feitos como a conquista do Novo Mundo, a ascensão da burguesia comercial e o fim do domínio feudal, fez das fogueiras um instrumento de repressão e morte para milhares de mulheres condenadas por bruxaria. 
Por Cadu Ladeira e Beth Leite

As pilhas de lenhas e gravetos já estavam acesas e a multidão inquieta, aguardava o início do ritual que conhecia tão bem. Afinal, execuções eram espetáculos imperdíveis,

que atraiam a atenção de pessoas vindas de vários cantos. Em meio ao ruído abafado dos comentários sobre os horrores que havia cometido, surgiu enfim a condenada. A turba, que já estava agitada, aproveitou para liberar a tensão reprimida: objetos, palavras de ódio, risos e piadas partiam de todas as direções contra a terrível criatura. Não houve muitas delongas. A sentença foi lida rapidamente, o carrasco, num gesto piedoso, estrangulou a condenada para que não enfrentasse as chamas viva e, em poucos minutos, seu corpo ardia, diante da aclamação selvagem da assistência.


Durante mais de 300 anos, cenas como essa se tornaram corriqueiras nas praças públicas de boa parte da Europa e o caminho da fogueira se transformou no destino de milhares de mulheres. Nuas, montadas em vassouras, aterrorizando cidades, aldeias e castelos, no imaginário popular e religioso da época, as bruxas estavam por toda parte, semeando o pavor. A perversidade feminina campeava solta, a serviço dos mandos do demônio e precisava ser contida qualquer custo.

De 1450 a 1750, poucas pessoas ousariam contradizer essa doutrina, repetida em tom de ameaça nos púlpitos dos pregadores católicos, assim como nos sermões protestantes depois da Reforma religiosa de Martinho Lutero no século XVI. Bruxaria era uma calamidade tão real quanto tempestades ou pestes, e intimamente ligada à natureza feminina. Com exceção de Portugal e Espanha, onde os principais perseguidos eram cristãos novos e judeus, em quase toda a Europa a porcentagem de mulheres excedeu 75% dos casos.
Em algumas localidades, como o condado de Namur (atual Bélgica), elas responderam por 90% das acusações.

Estima-se que 100 000 processos foram instalados pelo continente afora e pelo menos 60 000 vidas se perderam em meio às chamas.

Foi em plena Idade Moderna – a mesma que presenciou a descoberta de um novo mundo com as grandes navegações, a ascensão da burguesia comercial, o fim do domínio feudal e a formação dos primeiros Estados nacionais europeus – que o temor às forças do mal deixou o campo da crendice popular para se tornar alvo de uma perseguição sistemática de tribunais leigos, religiosos e da Inquisição – sob controle papal.

Não que as fogueiras tenham sido estranhas à sociedade medieval. A Idade Média também presenciou exibições do poder purificador das chamas, a mais notável delas, sem dúvida, aquela que consumiu a vida da jovem Joana d’Arc em 30 de maio de 1431, na cidade de Rouen, então sob domínio inglês. Heroína nacional, Joana ficou famosa depois que conduziu o exército francês à vitória sobre os ingleses em Orléans e deu início à revanche de seu país na Guerra dos Cem Anos (1337-1453), até aquele momento vencida fragorosamente pelos britânicos. Em 1430, quando caiu prisioneira nas mãos do duque de Borgonha, aliado ao rei inglês Henrique V, seus inimigos aproveitaram a fama das visões que ela costumava ter desde pequena para levá-la à fogueira, mesmo sabendo de sua extrema devoção religiosa. Nesse caso, porém, o cunho político da condenação era tão óbvio, que antes do final daquele século ela seria reabilitada e em 1920 finalmente transformada em santa.

Para bruxas menos famosas, no entanto, a chegada da Idade Moderna trouxe uma mudança radical na atitude da igreja e dos tribunais em relação ao universo da superstição, do paganismo e do mito com o qual, havia mais de 1500 anos, a Europa convivia. Na mitologia romana, Diana, deusa dos bosques e dos animais, já costumava guiar amazonas noturnas em cavalgadas celestes. 

Entre as crenças imemoriais germânicas, acreditava-se que figuras ameaçadoras, conhecidas como streghe, se reuniam na floresta em torno de caldeirões para realizar seus rituais. Depois se volatilizavam e invadiam as casas para chupar a vitalidade das crianças. Mas em meio à insegurança da aurora da modernidade, um tempo marcado por mudanças e desgraças constantes como fomes, pestes, guerras e conflitos religiosos, boa parte dessa tradição fantasiosa do passado acabou associada à certeza de que o demônio e suas seguidoras estavam determinados a dominar o mundo. 

Feitiços e mulheres voadoras tornaram-se, da noite para o dia parte te de uma grande conspiração demoníaca. Encantos e ungüentos – chamados na época de maléfica – que antes serviam para ajudar as pessoas se transformavam em passaporte certo para a morte.

Não era preciso muito para provar que a ação infernal estava em andamento. Além das tradicionais acusações de possessões diabólicas, crises políticas e sociais, calamidades naturais ou qualquer outro acontecimento anormal eram capazes de detonar a mortandade. Em Trier, na França, uma feroz epidemia de processos contra as bruxas ocorreu entre 1580 e 1599, quando duas grandes colheitas foram dizimadas por alterações climáticas. 

No principado alemão de Ellwagen, em 1611, em Genebra em 1530,1545,1571 e 1615 e em Milão em 1630, para citar uns poucos exemplos, centenas foram condenadas à morte após um surto de peste. No século XVII, em Cambrai, também na Franca a instalação de novas indústrias no campo gerou uma onda de ansiedade entre os camponeses que logo desembocou numa grande caça.

Algumas alegações contra a bruxaria eram tão descabidas, que só mesmo o clima de paranóia coletiva explicava a relação: em 1590, depois que uma tormenta no Mar do Norte destruiu um dos navios da comitiva de Jaime VI da Escócia e de sua noiva, Ana da Dinamarca, os dois países iniciaram uma cruel perseguição a feiticeiras. As grandes caçadas vinham assim: como tempestades de verão, chegavam avassaladoras e de surpresa, mas tinham curta duração. Quase sempre, após um período de frenética perseguição, as comunidades se aquietavam durante os anos seguintes. Era como se tivessem se livrado de um cancro.

Escritos da época registram o quase inacreditável. Na diocese italiana de Como, 1000 execuções em um ano. Em Toulouse, na França, 400 cremações são contadas em um único dia. No arcebispado francês de Trier, em 1585, 306 bruxas delataram cerca de 1500 cúmplices. Embora a maior parte das acusadas tenha escapado à morte, isso não impediu que duas aldeias da região ficassem à beira do extermínio: sobraram apenas duas mulheres em cada uma delas.O mais impressionante é que a maior parte dessas mulheres, e mesmo dos homens, condenadas chegaram às fogueiras por confissão própria, graças à tortura. 

Durante esses quase três séculos de morte, conseguir uma confissão era apenas questão de tempo. Quando acontecia de o acusado resistir muito durante uma sessão de maus tratos, isso só aumentava a convicção de culpa dos interrogadores: afinal, tamanha resistência só podia ter por trás o auxílio de forças que não eram apenas naturais. Hoje, sabe-se que o uso indiscriminado desse instrumento macabro se confunde com o próprio mapeamento da caça às bruxas pela Europa.

O predomínio do temido Tribunal de lnquisição, por exemplo, serviu para atenuar os casos de condenação à morte de bruxas nos países da Península Ibérica e na Itália. Embora tenha ficado famoso na Idade Média pela prática da tortura, na época em que começou a grande repressão européia, a partir do século XV, os inquisidores já haviam elaborado uma extensa reforma jurídica que garantia não só assistência legal aos acusados como restringia a ação dos torturados a casos muito especiais. Na Inglaterra, onde suspeitos de bruxaria só podiam ser submetidos à tortura com autorização dos conselhos superiores de Justiça, a caça às bruxas também teve pouca expressão. Já na Alemanha, dividida em dezenas de ducados e principados independentes política e judicialmente, a caça às bruxas ganhou proporções assustadoras. Nada menos de 50% dos processos contra elas aconteceram em terras germânicas, e a maior parte resultou em morte.

Às vezes, a descoberta de uma fraude conseguia evitar que a perseguição chegasse a um final dramático. Em 1633, o jovem inglês Edmund Robinson denunciou uma mulher que o teria levado a um sabá de bruxas, onde estavam reunidas cerca de sessenta feiticeiras. O menino deu o nome de dezessete delas, todas imediatamente presas e condenadas. Algumas dúvidas sobre o depoimento, no entanto, levaram o bispo de Chester a interrogar Edmund e ele acabou admitindo ter forjado a história por sugestão do pai, que havia indicado todos os nomes “por inveja, vingança e desejo de tirar vantagem”, descobriram os juízes. Na Escócia, o ensaio de uma grande repressão nacional em 1661 entrou em colapso quando os eméritos caçadores de bruxas John Kincaid e John Dick foram flagrados dando picadas em mulheres acusadas de bruxaria: nos tribunais, essas pequenas marcas eram a prova de que elas haviam feito pacto com o diabo.

Foram poucas, porém, as caças detidas por evidência de fraudes. Normalmente, quando uma perseguição se instalava, nada conseguia detê-la e o pânico tomava conta da população. A princípio, todos estavam sob suspeita e a melhor defesa era o ataque. Uma vez iniciada a caça, delações não paravam mais. Assustadas com a perseguição, multas pessoas logo se punham a entregar as vizinhas na tentativa de livrar a própria pele de potenciais acusações. Cada possível bruxa levada a julgamento, por sua vez, não tardava a incriminar mais uma lista de acusadas num efeito dominó que levava grandes levas de pessoas diante dos juízes.

Cenas e relatos como esses não só foram realidade como contavam com uma robusta fundamentação teórica de uma obra sinistra. Publicado em 1486, o livro Malleus Maleficarum, escrito pelos inquisidores papais alemães Heinrich Kramer e James Sprenger, foi um eficaz instrumento nos tribunais para consolidar a crença de que uma grande conspiração arquitetada por Satã e suas seguidoras, as bruxas, tomava conta do mundo. Até o final do século XV, o manual já era um best seller, recordista absoluto entre qualquer livro anterior ou posterior sobre demonologia, com mais de uma dúzia de edições.

Na detalhada obra, que explicava desde os feitiços mais comumente praticados até como localizar a presença das malignas criaturas no seio da sociedade, Kramer e Sprenger não pouparam esforços para mostrar que a mesma mulher que provocou a expulsão do homem do paraíso ainda era uma ameaça presente. O velho temor católico de monges e padres celibatários estava mais forte do que nunca. “A perfídia é mais encontrada nas pessoas do sexo frágil do que nos homens” garantiam os dois. Bruxas eram o mal total: renunciavam ao batismo, dedicavam seus corpos e almas ao demônio e, suprema lascívia, costumavam manter relações sexuais com ele.

Principalmente durante os sabás, reuniões em que as forças do mal se reuniam para banquetear-se com criancinhas não batizadas e que sempre terminavam em fabulosas orgias. Testemunhos da época davam notícia de sabás reunindo até 1000 bruxas.

Para provar a propensão natural da mulher à maldade não faltavam argumentos aos autores do Malleus. A começar por “uma falha na formação da primeira mulher, por ser ela criada a partir de uma costela recurva, ou seja, uma costela no peito, cuja curvatura é, por assim dizer contrária à retidão do homem. A própria etimologia da palavra feminina confirmava essa fraqueza original: segundo eles, femina, em latim, reunia em sua formação as palavras fide e minus, o que quer dizer menos fé.

Defender idéias assim não era exclusividade dos dois inquisidores alemães. A aversão à mulher como ser mais fraco e, portanto, mais propenso a sucumbir à tentação diabólica era moeda corrente em todas as regiões da Europa – dos pequenos vilarejos camponeses aos grandes centros urbanos. Nos sermões de padres por toda a Europa, proliferava a concepção de que a bruxaria estava ligada à cobiça carnal insaciável do “sexo frágil”, que não conhece limites para satisfazer seus prazeres. Com seu “furor uterino”, para o homem a mulher era uma armadilha fatal, que podia levá-lo à destruição, impedindo-o de seguir sua vida tranqüilamente e de estar em paz com sua espiritualidade.

O clima de desconfiança em relação às mulheres teve também predileções profissionais. Quando não era o caso de grandes perseguições orquestradas para expurgar males como a peste, certos ofícios tipicamente femininos tinham precedência na lista de denúncias. Curandeiras, vitais para uma sociedade onde a medicina ainda era uma ciência incipiente, tornavam-se herejes e apóstatas da noite para o dia. Cozinheiras também viviam sob constante desconfiança, assim como as parteiras. Acusadas freqüentemente de batizar os recém-nascidos em nome do diabo ou de matá-los para usar seus corpos em rituais, elas foram vítimas de anos de suspeita acumulada, numa época em que a taxa de mortalidade infantil era altíssima.

Em 1587, a parteira alemã Walpurga Hausmannin, foi processada por ter causado a morte de quarenta crianças, algumas com até 12 anos. Entre os métodos que ela empregava, estavam o estrangulamento, esmagamento de cérebro da criança no parto e aplicação de “um ungüento do diabo sobre a placenta”, de modo que a mãe e a criança morressem juntas. Seu destino foi a fogueira. O mesmo de uma parteira húngara, que em 1728 conseguiu uma marca duvidosa, mas perfeitamente factível para seus contemporâneos: ela morreu queimada por ter batizado nada menos do que 2000 crianças em nome do demônio.

Para quem se acostumou a relacionar a figura das bruxas a personagens pitorescas de contos da carochinha – como a madrasta de Branca de Neve ou a fada malvada de Cinderela -, às vezes fica difícil acreditar em histórias assim. Mas elas existiram e deixaram em seu rastro uma cruel realidade da morte de milhares de mulheres inocentes em fogueiras piamente acesas para limpar o mundo.



ELAS POR ELES

A identidade com o pecado original, principalmente na história do cristianismo, foi um fardo pesado para a mulher até o século XVII. Desde os primeiros eremitas cristãos, nos desertos da Síria é do Egito, a busca da austeridade religiosa pelo isolamento ascético tornou-se não só uma regra obrigatória para o aprimoramento espiritual, mas também consagrou o papel da mulher como a principal tentação mundana, capaz de afastar o homem do caminho da purificação. Uma norma que, na Europa, começaria a se consagrar a partir do século VI, quando São Bento de Nursia fundou o mosteiro de Monte Cassino, na Itália, e deu início ao movimento monástico beneditino, que marcaria profundamente a atitude religiosa do continente.

“Toda malícia é leve, comparada com a malícia de uma mulher.” (Eclesiástico 25:26)
“Tu deverias usar sempre o luto, estar coberta de andrajos e mergulhada na penitência, a fim de compensar a culpa de ter trazido a perdição ao gênero humano… Mulher, tu és a porta do Diabo.” (Quinto Tertuliano, escritor cristão, século III)
“Dentre as incontáveis armadilhas que o nosso inimigo ardiloso armou através de todas as colinas e planícies do mundo, a pior é aquela que quase ninguém pode evitar: é a mulher, funesta cepa de desgraça, muda de todos os vícios, que engendrou no mundo inteiro os mais numerosos escândalos.” (Marborde, monge de Angers, século Xl)
“Toda mulher se regozija de pensar no pecado e de vivê-lo. “(Bernard de Morlas, monge da Abadia de Cluny, século XII)
“A mulher é um verdadeiro diabo, uma inimiga da paz uma fonte de impaciência, uma ocasião de disputa das quais o homem deve manter-se afastado se quer gozar a tranqüilidade” (Francisco Petrarca, poeta italiano, século XIV)
“Que se leiam os livros de todos aqueles que escreveram sobre feiticeiros e encontrar-se-ão cinqüenta mulheres feiticeiras, ou então demoníacas, para um homem.” (Jean Bodin, jurista, sociólogo e historiador, século XVI)
“Pois a Natureza pretende fazer sempre sua obra perfeita e acabada: mas se a matéria não é própria para isso, ela faz o mais próximo do perfeito que pode. Então, se a matéria para isso não é bastante própria e conveniente para formar o filho, faz com ela uma fêmea, que é um macho mutilado e imperfeito.” (Laurent Joubert, conselheiro e médico inglês, século XVII).

FONTE: Contando História – http://www.amazon.com.br/~armando

As Bruxas da Ilha de Santa Catarina

Este ano de 1963 verificaram-se três casos de morte de crianças, por artes das bruxas, na cidade de Florianópolis e no interior da ilha de Santa Catarina. A conselho de benzedeiras e milagreiras, os pais das pequeninas vítimas prepararam as armadilhas tradicionais, mas somente uma das bruxas foi apanhada.

Quem são essas estranhas criaturas?
Crédito da imagem: Viviane Torres Curth. Obtido via web, clique na imagem para acessar o blog da artista
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Os entendidos dizem que, se um casal tem seguidamente sete filhas, a mais velha ou a mais moça delas está predestinada a transformar-se em bruxa, em especial se as meninas são

feias, esqueléticas, de nariz adunco e de hábitos mais ou menos estranhos. Há um modo de evitá-lo. À medida que as meninas vão nascendo os pais fazem com que as irmãs mais velhas batizem as mais môças, dando-lhes o nome de Benta; e, após o batismo, despem as crianças e administram-lhes uma colherinha de vinho virgem, vestindo-as em seguida com a mesma roupa, mas pelo avesso, até o galo preto cantar. Parece, porém, que tal cautela tem sido pouco observada – ou não haveria tantas bruxas a assombrar a ilha.
As bruxas costumam aparecer, com mais freqüência, na Ponta da Feiticeira, no distrito dos Ingleses, onde em certas noites se pode ver um facho de fogo errante a passar sobre as casas do lugar; mas também foram localizados em Santo Antonio de Lisboa, Pântano do Sul, Ponte das Canas, Lagoa da Conceição, Rio Tavares, Morro das Pedras, Ribeirão da Ilha e Barra do Sul.
Em meio a gargalhadas estridentes e sinistras as bruxas divertem-se nos pastos, ora dando nós nos rabos e crinas dos cavalos (nós que seriam indesatáveis), ora chupando-lhes o sangue, ora obrigando-os a galopar as tontas; nas encruzilhadas dos caminhos às vezes transformadas em mulas oferecendo montaria aos viajantes incautos, ou na forma de galinhas chocas; na praia soltam as canoas dos pescadores, enleiam-lhes o espinhel, sujam-lhes as velas; em casa aboletam-se no encosto dos bancos e cadeiras pondo os pés sujos de lama e de fezes no assento para sujar as roupas das pessoas de família; e em geral atiram pedras, torrões de barro (barro de cemitério) junta de cobra e matérias fecais sobre coisas, animais e pessoas.
Quando há figueiras e carvalhos na redondeza, reúnem-se em concílio sobre as suas ramagens para treinar as novas bruxas ou para combinar as travessuras da noite, mas o seu ponto preferido de reunião às quintas e sextas-feiras a horas mortas, são casas abandonadas ou mau assombradas.
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Nesses dias as bruxas despem-se, escondem as roupas sob folhas de mato em touças de bananeira ou sob os paneiros das canoas dos pescadores, esfregam no corpo unto virgem e pronunciam as palavras mágicas:
“Por cima do silvado

e por baixo do telhado”
a que algumas vezes acrescentam:
“formada em bicho mandado.”
Estão aptas então a toda sorte de estripulias. Locomovem-se em lanchas baleeiras, canoas bordadas e de borda lisa, lombo de cavalo, carro de boi, vassoura, – e nem sempre limitam as suas andanças à ilha, largando-se pelo mundo a visitar países em todos os continentes.
O encanto dura algumas horas a partir da Ave Maria marcadas pelos sucessivos cantos de aviso do galo branco, do galo amarelo e do galo preto. Se o canto do galo preto as surpreender ainda a cumprir o fado, as bruxas não poderão voltar novamente a forma humana.
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Os habitantes da ilha conhecem um esconjuro contra as bruxas,
“Bruxa

Tatarabruxa

Aguilhão nos teus pés

e antolhos nos teus olhos

Tu não me entras aqui nesta casa

nem nesta comarca toda

Em nome de Deus e da Virgem Maria,

Amém”
mas alguns deles, não tão crédulos no simples poder das palavras, quando as pressentem se valem de vários contra para mantê-las à distancia: desenham a cruz do sino Saimão na porta da casa; despem a roupa e vestem-na pelo avesso; põem uma faca entre os dentes com o corte para fora… Acredita-se que o sino Saimão prenda a bruxa no local.
Uma defesa permanente é o breve em que se reúnem um pedacinho de madeira com a cruz do sino Saimão, um pedacinho de esporão de galo preto, um pouco de pó da gema de um ovo da Sexta-Feira Santa, um pedaço da unha de gato preto e três grãos de mostarda.
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A aparência das bruxas apavora e terrifica.
Pessoas que com elas tiveram contato dizem que são feias como os sete pecados, que os seus olhos chispam fogo e que nas mãos engelhadas empunham fachos de luz de cores diversas, que sacodem no ar numa chuva de faíscas.
Uma bruxa que costumava ficar ao leme de uma lancha que toda semana furtava na praia tinha o corpo coberto de escamas negras e as unhas das mãos semelhavam pontas de lança, os cabelos compridos caiam pela pôpa sobre o mar deixando no rastro um fogo de ardênia, nos olhos chamejavam dois feixes de luz e os pés eram como patas de mula…
Crédito da imagem: Obtido via web: Guia Floripa, clique para acessar.
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A bruxa adora chupar o sangue das criancinhas.
Os pais se precaveem contra essa possibilidade pondo ao pescoço da criança um rosário de nove dentes de alho e queimando a palha das liláceas no interior da casa, para afugentar as bruxas.
Não há dúvida de que se trata de bruxedo quando uma criança de menos de um ano, ao adoecer apresenta o cabelo acarneirado, o corpo coberto de manchas roxas e mesmo sangrando em alguns pontos, e se mantém de mãos cruzadas sobre o peito (as vezes também os pés cruzados) desatando num choro que mete dó ao anoitecer, principalmente as sextas-feiras. Em geral quando a misteriosa moléstia chega a esse ponto os pais já recorreram ao médico da localidade sem que os seus remédios tenham surtido efeito visível. Vendo a criança definhar os pais chamam alguma benzedeira ou milagreira conhecida na redondeza; Esta ao chegar à casa confirma, se ficar confusa ou se se puser a bocejar incontidamente, que alguma bruxa está exercendo a sua ação maléfica sobre a criança.
Para penetrar em casa e chupar o sangue dos pequeninos as bruxas afinam e alongam o corpo de maneira a passar pelo buraco da fechadura.
A benzedeira ou milagreira persigna-se e aconselha para obter a cura do doente, ou tratamentos mágicos se o caso parece de menor importância, ou alguma das armadilhas tradicionais poderosas para desencorajar e desmascarar as bruxas, nos casos mais graves.
Tratamentos:
1)        Faz-se um cozimento com cisco de três marés com mo qual se banha a criança. Após o banho dão-se-lhe três colherinhas do cozimento para beber. O tratamento deve continuar durante nove sextas-feiras. (Em certas épocas o mar avançando pela praia, deixa em três dias sucessivos, camadas de detritos, cisco, a pequena distancia uma da outra. Um pouco do detrito de cada qual dessas camadas forma o cisco das três marés, ingrediente usado para este tratamento mágico).
2)        Uma variante do anterior: Faz um cozimento com ciscos das encruzilhadas e com ele se dá um banho na criança, fazendo a beber em seguida, três colherinhas do líquido. Os entendidos dizem que o remédio se mistura com o sangue da vítima, o que enjoa as bruxas, que dela desistem.
3)        Apanha-se uma pedra numa coivara e faz-se uma fogueira em torno dela até que a pedra fique em brasa; atira-se a pedra numa vasilha com água virgem da fonte, quando a água se torna tépida retira-se a pedra e dá-se um banho na criança, administrando-lhe em seguida três colherinhas da água. A pedra depois de usada deve ser reposta no mesmo local. Durante nove sextas-feiras deve se repetir o tratamento utilizando de cada vez uma pedra diferente.
Armadilhas:
1)        O pai toma a primeira camisa usada pela criança, criva-a de agulhas, coloca-a dentro de um pilão de chumbar café e com a mão de pilão soca-a até que as agulhas penetrem na madeira do pilão, ou seja, no corpo da bruxa, que não podendo resistir a dor, vai procurar a família para confessar-se culpada e perde o encanto.
2)        Põe-se uma ceroula do pai, disposta em cruz, sobre a criança; Reza-se o creio-em-deus-padre de trás para diante; Sobre a mesa ou numa cadeira coloca-se um pires com água benta conseguida na igreja, ou comum apanhada na fonte numa sexta-feira antes do nascer do sol, dentro do pires um bocado de cera virgem e a chave da porta principal; Os pais devem fica acordados e atentos no escuro, quando a criança chorar (sinal de que a bruxa está a chupar-lhe o sangue), os pais devem, com a cera virgem, tapar o buraco da fechadura; Basta aguardar então o desencanto da bruxa, que se dará exatamente quando o galo preto cantar.
3)        Dentro de um baú de folha-de-flandres acende-se uma vela benta; reza-se o creio-em-deus-padre de trás para diante sobre a chama da vela e abaixa-se a tampa do baú de tal modo que o ar possa nele penetrar mantendo viva a chama. Com a casa as escuras todas as chaves devem ser retiradas das portas e colocadas em cima do baú; Quando a criança chorar os pais apanham as chaves de cima do baú, introduzem-nas nos buracos das fechaduras e acendem as luzes; Presa a bruxa, coagida pela oração e pela vela benta, tenta fechar o baú, e ao sentar-se em cima dele, perde o encanto.
4)        Uma variante da anterior: Num meio alqueire de medir farinha, junto a cama da criança, acende-se uma vela benta sobre a qual se reza o creio-em-deus-padre de trás para diante; A casa deve ficar as escuras com todas as chaves sobre o meio alqueire; Quando a criança chorar os pais apanham as chaves, introduzem-nas nas fechaduras e acendem as luzes; A bruxa, sentindo-se presa, procurará sentar-se sobre o meio alqueire, com o que se desencantará.
5)        Põe-se uma tesoura, aberta em cruz, numa mesa próxima ao berço da criança; As chaves das portas devem estar num pires com água benta; A casa estará as escuras; Quando a criança chorar os pais introduzem as chaves nas fechaduras e acendem as luzes; A bruxa, que tem horror a tesouras abertas, perde o encanto.
6)        Cozem-se folhas de Guiné, cordão-de-frade, limoeiro e arruda, nove dentes de alho e um pouco de mostarda; Com esse cozimento dá-se um banho na criança; Todos os irmãos e todas as pessoas da família residentes na casa devem lavar os pés na mesma água até chegar a vez do pai, que reza o creio-em-deus-padre de trás para diante sobre a vasilha; Fecha-se então a porta deixando-se a chave em falso, quase a cair pela parte de dentro; Põe-se a vasilha com água do cozimento abaixo da fechadura; Para penetrar na casa a bruxa deverá empurrar a chave, que cairá dentro da vasilha fazendo com que ela se desencante. Esta armadilha deverá ser preparada às sextas-feiras à hora da ave-maria.
Se estas armadilhas mais simples não dão resultado – há bruxas mais sabidas e mais experientes do que as outras, que não se deixam apanhar com facilidade – preparam-se outras mais fortes e mais terríveis, não apenas para desmascarar, mas também para revidar de algum modo, os poderes maléficos das bruxas, como as duas seguintes:
7)        Num prato com água perto da cama da criança, põem-se nove dentes de alho numa sexta-feira a hora da ave-maria, rezando-se o creio-em-deus-padre de trás pra diante; Uma faca bem afiada deve estar sob a cama do doente; Retiram-se todas as chaves das portas para que a bruxa possa entrar; Quando a criança chorar, dá-se-lhe uma colherinha da água que está no prato e corta-se com a faca um pedacinho da ponta de uma fita vermelha comprida, que surgirá descendo da cumeeira da casa em direção a boca da criança; Guarda-se o pedaço da fita sem nada dizer a ninguém. Uma estória corrente, relativa a esta armadilha, conta que o pedacinho da fita vermelha se transformou no bolso do pai, numa orelha humana – a orelha da bruxa, que desse modo pôde ser identificada.
8)        A hora da ave-maria numa sexta-feira, põe-se numa mesa próxima a cama da criança, um copo de cachaça sobre uma carta (usada) de baralho com um cigarro de palha de fumo de corda forte e uma faca afiada e pontiaguda, faz-se uma cruz sobre a mesa, reza-se o creio-em-deus-padre de trás pra diante; Quando a criança chorar retira-se o copo de cima da carta de baralho, apanha-se a faca e com ela se golpeia ou decepa qualquer parte de um bicho que aparecerá nas bordas do copo ou em cima do cigarro ou da carta de baralho. Uma estória referente a esta armadilha conta que o pai, tendo cortado a pata de uma rã que se equilibrava na borda do copo, viu-a transformada em dedos humanos – os dedos da bruxa que chupava o sangue do seu filho.
Nesses dois últimos tipos de armadilha, no dia seguinte corre a notícia de que uma mulher da vizinhança foi acidentada; O pai que deve manter o maior sigilo terá de procurá-la para que a armadilha dê o esperado resultado – a transformação mágica, em partes do corpo, das coisas que conseguiu arrancar à bruxa quando esta cumpria o seu triste destino.
Sempre que preparam uma armadilha os pais devem estar prevenidos com um rabo de tatu conservado no fumeiro da cozinha, para quando a bruxa reassumir a forma humana, aplicar-lhe uma boa surra até fazer sangue; Para reforçar a quebra do encanto as feridas da bruxa devem ser lavadas em salmoura – sal, pimenta e alho ou sal, cachaça e vinagre.
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As bruxas, poder maléfico solto sobre o mundo, são a maldade pela maldade sem endereço nem predileções, não há possibilidade de alguém as induzir a perseguir esta ou aquela pessoa e nem mesmo os parentes e os amigos estão livres de suas travessuras ou das suas crueldades.
Para a população em geral, são elas as responsáveis diretas, tanto por boa parte dos acontecimentos sem explicação plausível como por apreciável percentagem da mortalidade infantil (130,2 por mil nascidos vivos em 1957) registrada na ilha de santa Catarina.

Na Floresta


Gibran

Na floresta não existe nem rebanho, nem pastor.
Quando o inverno caminha, segue seu distinto curso como faz a primavera.
Os homens nasceram escravos daquele que repudia a submissão.
Se ele um dia se levanta, lhes indica o caminho, com ele caminharão.
Dá-me a flauta e canta! 
O canto é o pasto das mentes. 
E o lamento da flauta perdura mais que rebanho e pastor.

 Na floresta não existe ignorante ou sábio.
Quando os ramos se agitam, a ninguém reverenciam.
O saber humano é ilusório como a cerração dos campos
que se esvai quando o sol se levanta no horizonte.
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o melhor saber, 
e o lamento da flauta sobrevive ao cintilar das estrelas.

Na floresta só existe lembrança dos amorosos.
Os que dominaram o mundo e oprimiram e conquistaram, 
seus nomes são como letras dos nomes dos criminosos.
Conquistador entre nós é aquele que sabe amar.
Dá-me a flauta e canta! 
E esquece a injustiça do opressor.
Pois o lírio é uma taça para o orvalho e não para o sangue.

Na floresta não há crítico nem sensor.

Se as gazelas se perturbam quando avistam companheiro, a águia não diz: ‘Que estranho’.
Sábio entre nós é aquele que julga estranho apenas o que é estranho. 
Ah, dá-me a flauta e canta! 
O canto é a melhor loucura e o lamento da flauta sobrevive aos ponderados e aos racionais.

Na floresta não existem homens livres ou escravos.
Todas as glórias são vãs como borbulhas na água.
Quando a amendoeira lança suas flores sobre o espinheiro,
não diz: ‘Ele é desprezível e eu sou um grande senhor’
Dá-me a flauta e canta!
Que o canto é glória autêntica e o lamento da flauta sobrevive ao nobre e ao vil.

Na floresta não existe fortaleza ou fragilidade.
Quando o leão ruge não dizem: ‘Ele é temível’.
A vontade humana é apenas uma sombra que vagueia no espaço
do pensamento e o direito dos homens fenece como folhas de outono.
Dá-me a flauta e canta! 
O canto é a força do espírito e o lamento da flauta sobrevive ao apagamento dos sóis

Na floresta não há morte nem apuros.
A alegria não morre quando se vai a primavera. 
O pavor da morte é uma quimera que se insinua no coração.
Pois quem vive uma primavera é como se houvesse vivido séculos. 
Dá-me a flauta e canta! 
O canto é o segredo da vida eterna e o lamento da flauta permanecerá após findar-se a existência.

Reflexão

Hoje vi a vida nascer do meio da carne pútrida da morte de Samhain. Senti e distingui o aroma de flores no meio do cheiro de sangue.


Hoje vi um feixe de sol iluminando um minimo broto de um arbusto seco. Entendi o que vinha sentindo. Morrigan em sua plenitude invernal, começa a se despedir. É a vez dela morrer e se recolher (eu já morri, mais uma vez).
Começa a levar seu reinado para deixar o reinado de Briga vir. A terra antes morta/adormecida, recebeu as sementes em seu ventre e os guardou na escuridão. 

 
Logo o fogo de Briga, que começa a aquecer a terra trará a tona a vida, fará vivificar as flores, trará a forja de nossas vidas, a cura de nossa feridas e nos banhará em AWEN! 
 
Que a terra desperte lentamente de seu sono ainda sob os dominios de Sanhaim, para fazer as cabrar balirem em Oimelc. Jorrem seu leite na terra! Ganhem vida! Saiam de nossos sonos frios aos poucos e vejam na beira da caverna os raios do sol querendo, petulantes, aquecer as sementes explodiando-as. É hora de tomar força para as flores.
Morrigan, agradeço pelo Sanhaim e a morte de nosso egos e fraquezas, me tornaste um guerreiro mais forte. Foram ensinamentos tão dificeis de aprender dessa vez… acredito que ainda não consigo entendê-los. Ainda tentando sarar as feridas dessa batalha que apenas começou 

Briga, seja bem vinda! Eu tenho vida! Senhora, preciso tanto de ti. Seu fogo que aquece, sua cura que me renova, seu Awen que me inspira. Minha espada está flamejante para continuar o caminho, banhada pelo sangue de Morrighan e brilhante com o Awen de Briga!

Texto de Gui Lux
Extraído do blog Chwilen
 

Palavras de Cailleach

“Cailleach fala:



Meus ossos são frios, meu sangue ralo.
Eu busco o que é meu.
Eu busco o que ainda não foi semeado.
Eu busco os animais para cavernas quentes
e mando meus animais para o Sul.
Eu ponho meus ursos para dormir e mudo o pelo de meus gatos e cães para algo mais quente.
Meus lobos me guiam, seu uivo anuncia minha chegada.
Os cães, lobos e raposas cantam a canção da noite,
a serenata da anciã, a minha canção.
Eu digo sim a vida e agora digo sim a morte.
Eu serei a primeira a ir para o outro lado.
Eu trago o frio e a morte, sim, pois este é meu legado.
Eu trouxe a colheita e se você não colheu suas maçãs
eu as cobrirei de gelo.
Após o Samhain, tudo o que fica nos campos me pertence.”

Obtido no blog “Era da Filha

A Deusa Macha

           

                  

A Deusa Macha foi adorada na Irlanda mesmo antes da chegada dos celtas. Ela é uma deusa tríplice associada com Morrigan a deusa da guerra e da morte. É ligada também a Dana no aspecto de fertilidade da mulher. Seu pai era o “Aed, o vermelho” e sua mãe era Ernmas (druida feminina).

Há diversas lendas que convergem à Deusa Macha. Às vezes ela aparece como sendo pertencente  à raça de Thuatha De Danann, mas em outras surge como uma rainha mortal. Portanto,
é normal a confusão à respeito do que realmente ela é.

Macha foi esposa de Nemed e consorte de Nuada; chamada de “Mulher do Sol”. Ancestral do Galho Vermelho, é a Rainha da Irlanda, filha de Ernmas e neta de Net. Seu corpo é o de um atleta e seus símbolos são o cavalo e o corvo.

Macha está presente no “Livro das Invasões” quanto nas lendas do Ciclo de Ulster. Esta deusa é uma deidade tipicamente celta, pois em dado momento ela parece ser suave e generosa, para em outro transformar-se em terrível mulher guerreira.

Em algumas fontes, Macha é citada como uma das três faces de Morrighan, a maravilhosa deusa da guerra, da morte e da sensualidade. No “Livro das Invasões”, a seguinte frase descreve esta triplicidade;
“Badbh e Macha, grandes poderes.
Morrighan que espalha confusão, Guardiãs da Morte pela espada, Nobre filhas de Ernmas.”
Nesse contexto, Macha é retratada como uma mulher alta e destacada, vestindo uma túnica vermelha e cabelos castalho-amarelados.
Estas três deusas esconderam o desembarque dos Thuatha de Dannan na Irlanda no início dos tempos. Elas fizeram o ar jorrar sangue e fogo sobre oa Fir Bolgs, aqueles que inicialmente se opuseram contra os Thuatha, e depois os forçaram a abrigá-los por três dias e três noites.

No “Livro Amarelo de Lecan”, Macha é glosada como “um corvo, a terceira Morrighan”.
Mas quem são as três Morrighan?
São:
Nemain – “frenesi”, a que confunde as vítimas e espalha medo;
Morrighan – “Grande Rainha”, a qual planeja o ataque e incita à valentia;
Macha – o corvo que se alimenta dos cadáveres em combate. Está também associada a troféus de batalha sangrentos, como as cabeças recolhidas dos inimigos, chamadas de “a Colheita de Macha”. Esta sua ligação com a arte da batalha é reforçada nome das Mesred machae, os pilares das fortalezas, onde as cabeças dos guerreiros derrotados eram empaladas.

Macha é também a deusa que guia às almas ao além-mundo. Ela vive na terra dos mortos à oeste. Antes de sua ligação com à morte, ela representava a quintessência das fadas. É igualmente considerada uma deusa da água semelhante a Rhiannon e Protetora dos Eqüinos como Epona. Está ainda, associada à deusa do parto, especialmente se este for de gêmeos.


               A MALDIÇÃO DE MACHA

Macha, segundo conta uma das lendas, é uma Deusa que preferiu viver entre os mortais. Teve como seu primeiro marido o líder Nemed, que morreu em uma batalha, narrada no “Leabhar Gabhála” (O Livro das Conquistas),
Macha governou a Irlanda por um bom tempo sozinha, até unir-se ao seu segundo marido Cimbaeth, que foi quem construiu o forte real de “Emain Macha”.

Mas foi com seu terceiro marido, Crunniuc que surgiu a lenda de sua maldição. A história inicia-se quando Crunniuc, um fazendeiro de Ulster fica viúvo e deseja uma nova esposa. Macha, uma senhora misteriosa, entra em sua casa, organiza seu lar, dá ordens aos seus criados, fazendo tudo para agradá-lo. À noite faz amor com ele, convertendo-se desta forma sua esposa.

Como deusa protetora dos eqüinos e apaixonada por seu marido, ela multiplicou-os de maneira assombrosa e passava as manhãs correndo e competindo com eles pelos prados. Neste período, Crunniuc prosperou como nunca, e recebeu o reconhecimento dos outros nobres da região. Aparentemente, a mulher, cujo nome ela o instruíra a jamais perguntar, trouxera-lhe boa fortuna. E, logo em seguida Macha fica grávida.

Chegou então a época em que, Crunniuc deveria assistir a um Festival Anual, dos quais todo mundo participava. Macha havia lhe pedido para não ir, advertindo-lhe que se falasse dela atrairia desgraça para os dois. Crunniuc não desistiu, entretanto prometera não dizer uma só palavra sobre seu relacionamento. 

O próprio rei de Ulster, Conchobar, presidia os festejos. Num certo momento, para agradá-lo, alguém fez elogios aos seus cavalos, garantindo que não havia outros mais velozes em todo o mundo. Crunniuc, não conseguindo conter-se, afirmou que sua mulher corria mais rápido do que qualquer quadrúpede. 

O rei com raiva mandou prendê-lo e exigiu uma comprovação de tais palavras. Sendo assim, forçam Macha a comparecer ao festival para competir com os cavalos do rei sob pena de matarem seu marido se ela resistisse. Ela protestou e apelou pedindo então que pelo menos o rei aguardasse o término de sua gestação para que tal feito fosse realizado. 

Lembrou-lhes que todos tinham mãe e perguntou-lhes o que sentiriam se obrigassem a cada uma delas a uma prova semelhante em estado tão avançado de gravidez. Mas de nada adiantou seus lamentos, pois a maioria dos homens devido ao excesso de álcool lhes parecia muito atrativo aquele perigoso desafio.

Macha, não teve outro remédio a não ser aceitar a tal corrida. Trouxeram então os cavalos e teve início a competição, que teve um fim muito breve, pois ela alcançou a chegada rapidamente com uma vantagem folgada. 

No entanto, no final, caiu ao solo gritando de dor e naquele mesmo instante deu à luz gêmeos. Neste instante todos se deram conta do que haviam feito, mas foram incapazes de moverem-se para ajudá-la. Foi quando ergue-se e anunciou que ela era a Macha e que seu nome seria conhecido para sempre naquele lugar e amaldiçoou todo o povo do Ulster, porque a piedade jamais morou no coração daqueles homens. A partir daquele dia, a vergonha e a desonra que lhe haviam provocado voltariam à eles multiplicadas e toda a vez que seu reino estivesse em perigo se sentiriam tão fracos como uma mulher ao dar à luz. 
E assim a maldição se cumpriu. Somente as mulheres, as crianças e o Herói Cuchulainn, filho de Lug, o único imune à maldição, ficaram a salvo das palavras de Macha, que deveriam durar nove gerações.

Esta lenda surgiu na época em que o patriarcado começava a suplantar o matriarcado. Marcha , através deste mito nos mostra que era suprema, mágica e hábil, mas o mito indica que mesmo com todos estes atributos o Rei pode forçá-la a correr, demonstrando que a posição feminina já não era mais tão superior dentro da sociedade.

O período de fragilidade imposta pela deusa, só nos faz entender que o conhecimento feminino pode enfraquecer os homens. Este período imposto pela deusa, comop forma de castigo, seria equivalente ao período menstrual de todas as mulheres.

Macha  é símbolo da Soberania da Terra. Desrespeitar  a terra é desrespeitar a natureza criadora de toda a Vida.

Tamanho poder desta deusa pode ser atestado pelo pequeno ritual que ela praticava ao deitar-se com Crunniuc. Ela antes, caminhava em círculo no sentido horário ao redor do quarto para afastar qualquer mal. A Rainha Maeve também, antes de qualquer batalha, realizava um movimento circular no sentido horário para proteger-se dos maus augúrios.
Esta prática mágica é realizada em diversas tradições pagãs. Inclusive em algumas capelas cristãs e nascentes sagradas, devem ser primeiro circuladas para depois se obter o direito ao ingresso.


MEDITANDO COM MACHA

Macha chega até nossas vidas para nos afirmar que todas as mulheres são deusas. Todas nós somos pequenos pedaços de um grande ser: a Grande-Mãe. Ela, nas suas várias formas de manifestação, é o símbolo principal da própria representação do inconsciente. Uma boa parte deste planeta já busca o resgate desta sabedoria. Não estamos descobrindo nada novo, mas sim simplesmente revelando o que já se é.

Quando nos afastamos do sagrado, acabamos fatalmente relegando à um segundo plano à paz, o amor e a alegria. Quando nos esquecemos que a vida é sagrada, nós perdemos a conexão com a força planetária da vida e ficamos à sombra da nossa verdadeira natureza.
Seu maior símbolo de busca interior é o LABIRINTO. Caminhos que lhe conduzem para dentro de si mesma (o).


A deusa está viva!
A deusa está viva!
A deusa está viva!
Seja bem-vinda.

                                                      

Asas de Morcego



           Embora o morcego não tivesse sido associado ao mito do vampiro até o século XIX, ele tem aparecido repetidamente desde os dias de Esopo e suas fábulas. Observadores antigos comentaram a semelhança de suas características com os seres humanos. Observaram, também, os morcegos amamentando seus rebentos pelos mamilos dos seios (1). Os conquistadores espanhóis interpretaram as novas variedades de morcegos, os hematófagos, que encontraram no México e na América do Sul, à luz tanto da imagem anterior de morcegos no folclore como das suas crenças tradicionais sobre vampiros humanos. Chamaram-nos não apenas de morcegos vampiros como também os descreveram como criaturas chupadoras, ao invés de “lambedoras de sangue” (segundo o historiador Alex Catarino foi D’Alembert quem sugeriu o nome “vampiro” para o morcego hematófago do novo mundo). De acordo com o folclorista Gordon Melton, “dois Europeus do século XVI, o Dr. Oliedo y Valdez (1526) e M. Giroalme Benzoni (1565), foram os primeiros a mencionar o morcego-vampiro em seus países”. Benzoni, em sua “History of the New World”, assinala: “Existem muitos bichos que mordem as pessoas durante a noite; eles estão em toda a costa do golfo de Pária e também em outras áreas, mas em nenhum outro lugar são tão pestilentos como nesta província de Nuevo Cartago, hoje Costa Rica; eles me pegaram em diversas regiões ao longo desta costa, mas especialmente em Nombre de Dios e enquanto eu estava dormindo eles morderam meus pés e meus dedões tão delicadamente que nem senti, mas pela manhã encontrei os lençóis e o colchão com tanto sangue que parecia ter eu sofrido um grave acidente”. (2)

       Uma nova ocorrência desse raro evento (pois os morcegos vampiros geralmente não gostam de sangue humano) foi assinalada vários séculos mais tarde quando Charles Waterton, autor de”Wanderings in South America”, foi acordado por seu amigo, certa manhã, depois de dormir numa rede, reclamando que morcegos vampiros o tinham atacado. Waterton investigou o assunto: “Ao examinar seus pés, constatei que o vampiro tinha mordido seu dedão; havia uma ferida um pouco menor do que a provocada por um percevejo; o sangue ainda estava esvaindo. Enquanto o examinava, acho que o coloquei num estado de ânimo pior ainda ao observar que um cirurgião europeu não seria tão generoso a ponto de fazer fluir o sangue sem cobrar”. (3) Waterson teve uma atitude mais complacente para com os vampiros: “Muitas vezes gostaria de ter sido mordido por um vampiro (…) Não poderia haver dor, pois o paciente está sempre dormindo quando o vampiro está sugando-o; e pela perda de algumas gotas de sangue, isso não seria nada no final das contas. Dormi muitas noites com meus pés fora da rede para tentar esse cirurgião alado, esperando que estivesse lá; mas foi tudo em vão”. Em sua volta ao mundo no decorrer da década de 1880, Charles Darwin (4) também observou o morcego vampiro se alimentando e escreveu o primeiro relato “científico” sobre o assunto que foi publicado em 1890 (5).

           Morcego é o nome comum dos mamíferos da ordem dos Quirópteros que tem os membros anteriores dotados de patágio, o que lhes permitem utilizá-los como asas. Os morcegos já existem sobre a terra por mais de 55 milhões de anos. A maioria das quase mil espécies de morcegos existentes no mundo alimentam-se de frutas, folhas e insetos. Destas apenas três, devido a sua estrutura bucal e a seu aparelho digestivo simples, são hematófagos (do grego, hematos = sangue + fagos = comer), ou seja, alimentam-se exclusivamente de sangue de vertebrados, sendo os únicos cordados (filo Chordata) a terem tal especialização. São, por isso, reconhecidos pelos biólogos como vampiros.
        

         O habitat das três variedades exclusivamente chupadoras de sangue é a América Latina, do México até o norte da Argentina (sendo encontrados com mais facilidade nas zonas rurais, próximo à criação de gado). São pequenos, alcançam até 8 cm de comprimento e cerca de 35 cm de envergadura. Possuem um bom sentido de olfato e olhos grandes que lhes proporcionam ampla visão. Morcegos vampiros são ágeis e, ao contrário de outras espécies, podem andar, correr e pular. Assim, para diferenciar os vampiros dos morcegos silvestres, basta observar que os hematófagos tem grande capacidade de locomoção, apoiando-se nos polegares dos membros anteriores (8). Se um vampiro cair ou pousar no chão, ele pula e volta a voar, impulsionado pelos seus dedões avantajados; entretanto, se um morcego de outra espécie qualquer cair, terá de se arrastar e escalar para, em maiores alturas, lançar-se ao vôo novamente. Caso fique preso, ficará se debatendo até se cansar, podendo morrer. 
             À noite, quando as presas estão dormindo, os morcegos-vampiros os localizam com o olfato e a visão. Ao encontrarem e escolherem um alvo adequado, usam sua termorecepção para saberem onde há vasos sangüíneos à flor da pele. Então, dão uma mordida rápida, superficial e quase indolor (de forma oval) (10). Depois da “janta”, a área do estômago e dos intestinos parece inchar e eles descansam até conseguirem urinar o excesso de água do sangue, a fim de ficarem mais leves para voar de volta a seu habitat (11). Às vezes, pode passar algumas horas sem voar. São raros os ataques a seres humanos mas podem ocorrer, principalmente sobre circunstâncias excepcionais como atesta o biólogo Ivan Sazima, da Unicamp, que relatou algumas investidas contra garimpeiros, em áreas antes ocupadas por pastagens: “Sem o gado de que se alimentava, não é incomum o vampiro atacar homens” (12). Nesse caso o alvo dos incisivos afiados são as extremidades do corpo. Enquanto esteve escrevendo sobre a atividade dos morcegos vampiros na gruta de Los Sabinos, no México, o explorador Dadiel P. Mannix encontrou menções de ataques contra humanos. Isso deve ter-lhe interessado muito pois descreveu um quadro bastante detalhista:
“Embora geralmente se alimente com o sangue dos animais, também aproveita, por vezes, o das pessoas adormecidas. Em lugar de pousar sobre o corpo, expondo-se a ser descoberto, oculta-se entre os lençóis, eleva-se com cuidado sobre a ponta das asas e desliza cautelosamente em direção ao rosto do adormecido. Então escolhe um local onde os nervos escasseiem e abunde o sangue – por exemplo, os lóbulos das orelhas ou a ponta do nariz – e ferra uma ligeira mordidela. Se a vítima se mexe, o morcego retrocede com um salto, espera que ela torne a adormecer e repete o ataque em outra parte do corpo. Continua depois as suas experiências, até encontrar o ponto em que a pessoa adormecida não sente os seus afilados dentes. Abre então a boca de par em par e, com dois dentes, pratica uma incisão rápida e oblíqua. Os morcegos não sugam o sangue da ferida, lambem-na. Para isso, golpeiam as veias de forma a que delas saia um jorro contínuo de sangue, sugando-o até encherem tanto o estômago que mal podem voar”. (13)
    Outro hábito bastante interessante dos morcegos-vampiros é usar o mesmo animal e a mesma ferida por várias noites seguidas, a fim de pouparem trabalho. Vampiros possuem pés acolchoados que lhes permitem aproximar-se da vítima sem acordá-la. São dotados de 20 dentes, incluindo os grandes incisivos ou “presas” que são curvos e agudos. É interessante notar que os morcegos-vampiros possuem menos dentes do que outros morcegos, como os frugívoros, por exemplo. Sua dentição é adaptada para alimento líquido, não sendo necessários molares e pré-molares desenvolvidos. Os dentes incisivos são muito afiados, assim como os caninos, de modo a facilitarem a mordida. Não mordem veias ou artérias. O corte, feito com os incisivos superiores, possui o tamanho de 0,5 por 1 cm e, no máximo, 3 mm de profundidade. Normalmente, um vampiro adulto consome aproximadamente 15 ml de sangue que corresponde a cerca de 40% de seu peso pré alimentar; mas a ferida pode sangrar por um tempo, devido à uma anticoagulante presente em sua saliva. Assim, a vítima pode perder até 200 ml de sangue enquanto eles usam a língua dobrada em forma de tubo para lamberem o sangue até se saciarem.
 
Os hábitos do morcego-vampiro são bem diabólicos; nos grupos muito numerosos se alimentam uns dos outros. Suas tendências canibais se dirigem aos exemplares mais velhos”. (14) Os morcegos têm, em média, um filhote por ano. Durante o vôo, estes ficam dependurados nas tetas da mãe por meio de dentes de leite em forma de gancho. Os biólogos sabem hoje que um filhote de vampiro cuja mãe tenha morrido é imediatamente adotado por outra fêmea, coisa rara entre as espécies animais. “Às vezes são vampiras virgens que se ocupam do pequeno órfão, criando inclusive leite para amamentá-lo”, diz Ivan Sazima (15). Segundo o biólogo Marco Aurélio Ribeiro, “outra curiosidade quanto aos vampiros é sua estrutura social muito sofisticada em relação a outros morcegos. As interações dentro de colônias são complexas, havendo fenômenos muito interessantes como a troca de alimento entre fêmeas, por exemplo, fêmeas que não conseguiram se alimentar em uma determinada noite recebem sangue regurgitado por outras mais afortunadas” (16).

                   Sabemos que a religião nativa de diversas partes da América pré-colombiana tendia a divinizar e temer os morcegos vampiros (figuras de homens-morcego eram quase sempre associadas à decapitação e ao derramamento de sangue): “O morcego foi, muitas vezes, adorado como entidade divina: Era o deus supremo de índios americanos da costa do Pacífico. Eles o chamavam de Chamalkan. O poderoso deus-morcego de Samoa invariavelmente liderava o grupo, quando se marchava para a guerra”; “Nas lendas de muitos índios americanos da região do Norte do país, o morcego aprece na surpreendente situação de herói galante, defensor desprendido da humanidade em crise”.

              Na mitologia dos maias, os morcegos fazem parte dos habitantes  misteriosos do mundo subterrâneo (22). Sobre isto, Eduard Seler informa: “Entre os maias, o morcego é uma das divindades que encarnam as forças subterrâneas. No Popol Vuh, está dito que a casa do morcego é uma das regiões subterrâneas que é preciso atravessar para alcançar o país da morte. O morcego é o senhor do fogo. É destruidor de vida, devorador de luz, e aparece, portanto, como um substituto das grandes divindades ctonianas: o Jaguar e o Crocodilo. Entre os mexicanos é igualmente divindade de morte; associam-no ao ponto cardeal Norte e, muitas vezes, representam-no combinado com uma mandíbula aberta que, outras vezes, é substituída por uma faca sacrifical”.


          Segundo Gordon Melton, “relatos de vampiros no México podem ser rastreados até os maias, cujo território se localizava no que é hoje a Guatemala, mas que alcançava ao norte a Península Yucatan e a parte sul do México atual. Este era o território dos morcegos vampiros, que foram incorporados à mitologia dos maias. Camazotz, o feroz deus das cavernas do submundo maia, era conhecido pela sua aparição no Popul Vuh e suas representações na arte maia. No Popul Vuh, dois irmãos entram no submundo para vingar a morte do pai. Para realizar esta tarefa, precisam passar por uma série de obstáculos, um dos quais era a Casa dos Morcegos. São atacados inicialmente por uma horda de morcegos e depois pelo próprio Camazotz. Camazotz era retratado como um homem-morcego de nariz afiado, grandes dentes e patas. Num determinado momento, um dos irmãos enfia a cabeça para fora de seu esconderijo e Camazotz rapidamente o decapita. A cabeça é então usada como a bola num jogo (típico da cultura maia). O irmão decapitado recebe uma cabeça substituta e os irmãos, no final, jogam e ganham. Camazotz, com seu nariz afiado, grandes dentes e patas era uma figura popularmente temida entre os mais e numerosas representações aparecem na arte desse povo. Camazotz servia a diversos propósitos. Era essencial para o mito agrícola básico constituído em torno do ciclo de plantação de milho. Em sua descida, levava a morte aos grãos de milho quando as sementes eram colocadas na terra, um passo necessário para proporcionar seu renascimento nas colheitas. Era também temido, sedento de sangue e deus das cavernas. As pessoas evitavam passar pelos lugares que acreditavam ser sua morada”. (24)
            Ao contrário dos Maias, a atitude dos Apinajés (jê), do Alto Tocantins, diante dos “homens-morcego” decaptadores de índios não foi nada contemplativa. Eles os interpretaram como inimigos, uma tribo rival de Cupendipes (indígenas de asas que os Apinajés diziam existir no Alto Tocantins), que, apesar dos atributos inumanos não lhes pareceram nada divinos ou dignos de sacrifícios. Carlos Estêvam de Oliveira registrou a tradição ouvida de indígenas Apinajés: “Antigamente existiu no Alto Tocantins uma estranha nação de índios possuidores de asas e que só andavam à noite, voando como os morcegos. Eram conhecidos por Cupendipes e habitavam em um morro, dentro de uma caverna. Quando voavam, conduziam os machados de lua, com os quais degolavam as pessoas e os animais. Certa vez, os Apinajés, reunindo os guerreiros de dez aldeias, foram atacá-los. Chegando ao morro, taparam as entradas da caverna com palhas secas, incendiando-as em seguida. Nesse ataque morreu um velho Cupendipe, ficando preso um menino que, não tendo ainda asas, não pode fugir. A fim de pegá-lo, os Apinajés entraram na caverna. Depois de prolongada busca, batendo com longas varas por todos os lugares, encontraram-no suspenso em um canto do teto, como se fosse um morcego. Os Apinajés, desejando criá-lo, levaram-no para a aldeia. Não conseguiram, porém, o seu intento. Sempre chorando, o pequeno Cupendipe recusava toda alimentação que não fosse o milho e não se deitava para dormir. Os Apinajés lembravam-se então da posição em que o haviam encontrado e fincaram no chão duas forquilhas, atravessando nelas uma vara. Nesta é que ele, pendurado pelos pés, dormia um pouco. Afinal, alguns dias depois de haver chegado à aldeia, morreu. No assalto à gruta dos Cupendipes, os Apinajés arrecadaram grande número de machados de lua (25) e inúmeros enfeites”. (26) Agora, levando-se em consideração a existência real de grandes morcegos capazes de andar que, talvez, atacassem índios em época de fome, vemos que esta lenda poderia ser inspirada num relato passado de geração em geração sobre a destruição de uma colônia de Desmodus Draculares no Alto Tocantins. Estes, mais tarde, teriam sido humanizados num processo de antropomorfização.
Histórias de “Índios-Morcego”, guardiães das cavernas da Montanha do Roncador, em Mato Grosso, também foram relatadas por um americano, Carl Huni: “A entrada das cavernas é guardada pelos índios morcegos, que são de pele escura e de pequeno porte, mas de grande força física. Seu sentido do olfato é mais desenvolvido do que o dos melhores cães de caça. Mesmo se eles o aprovem e lhe deixem entrar nas cavernas, receio que estará perdido para o mundo presente, porque guardam o segredo muito cuidadosamente e não podem permitir que aqueles que entram possam sair. Os índios morcegos vivem em cavernas e saem à noite para a floresta circunvizinha, mas não tem contato com os moradores de baixo, habitando uma cidade subterrânea na qual formam uma comunidade auto-suficiente, com uma população considerável. (…) Quando estive no Brasil ouvi muito sobre as cavernas sob a Terra e cidades subterrâneas. Elas estão (…) próximas do rio Araguaia, que desemboca no Amazonas (…) no sopé de uma cadeia de montanhas tremendamente comprida chamada Roncador. (…) Ouvi dizer que os índios morcegos guardam zelosamente a entrada dos túneis. (…) Sei que uma boa parte dos imigrantes que ajudou na revolta do General Isidoro Dias Lopes, em 1924, desapareceu nestas montanhas e nunca mais foi vista novamente. Foi sob o Governo do Dr. Bernardes, que bombardeou São Paulo durante quatro semanas. Finalmente fizeram uma trégua de três dias e permitiram que 4.000 praças, que eram principalmente alemães e húngaros, saíssem da cidade. Cerca de 3.000 deles foram para o Acre, no noroeste do Brasil e cerca de 1.000 desapareceram nas cavernas. Ouvi a história muitas vezes. Se me lembro bem do local onde desapareceram foi na extremidade sul da Ilha do Bananal (perto das Montanhas do Roncador)”. O Dicionário de Símbolos prossegue relatando sobre as crenças correlatas de outros povos sul-americanos: “(O morcego) parece ter a mesma função entre os índios tupis-guaranis do Brasil; para os tupinambás, o fim do mundo será precedido pela desaparição do Sol, devorado por um morcego – Claude d’ Abbeville, citado por Mett. Os maias fazem do morcego um emblema da morte, denominando-o aquele que arranca as cabeças; representam-no com olhos de morto.
Para os índios zunis (Pueblo), os morcegos são anunciadores da chuva. Em um mito dos índios chamis, aparentados com o grupo choko (da cordilheira dos Andes colombianos, vertente do Pacífico), o herói mítico Aribada mata o morcego Inka (o vampiro), a fim de assenhorear-se de seu poder de adormecer suas vítimas. Efetivamente, diz-se que o vampiro, quando quer morder um homem adormecido (geralmente entre os dedos do pé) para sugar-lhe o sangue sem despertá-lo, bate as asas sem parar. Aribada, tendo conseguido apoderar-se desse poder, costuma entrar durante a noite onde houver mulheres adormecidas, e por-se a agitar dois lenços – um branco e o outro vermelho – para poder abusar delas sem que o percebam”. (29)
Depois da colonização pelos brancos, da introdução do cristianismo e da introdução de escravos negros, ocorreram acréscimos e modificações nas crenças das Américas, que passaram a assemelhar-se cada vez mais com as superstições européias: “Espíritos malignos, em forma de morcegos, segundo se acreditava, podiam entrar em nosso corpo: e só era possível expulsá-los com a ação de exorcistas consagrados. Os curandeiros-feiticeiros da Nigéria, que são grandes cultores dessa arte, habilmente retiram morcegos e sapos pela boca do paciente, por acaso atacado por esses males. Entre os negros dos Estados sulinos dos Estados Unidos, maus espíritos são arrancados do corpo humano e injetados no corpo dos morcegos, que fogem para o vale das sombras com sua carga macabra.
Na obra Remaines, de Denis Grandville, há uma anedota que descreve o seguinte: Um cirurgião, um assistente e um padre atendem um paciente, profundamente atacado de melancolia. Enquanto o padre reza, o cirurgião faz uma pequena incisão no lado do paciente e, ao mesmo tempo, o assistente liberta o morcego, que havia trazido numa caixa escondida. O paciente acredita que o mau espírito foi arrancado de seu corpo e sara. No Brasil, essa anedota tem um continuação: ‘Meses mais tarde, o cirurgião explica ao paciente que tudo fora uma encenação, porque notaram que seu mal era psíquico e não físico’. Aí o paciente adoece novamente, dizendo: ‘Por isso é que eu ainda sinto o morcego voar dentro de mim'”. (30)
“Os caboclos brasileiros sabem como pegar morcegos: finca uma fina vara de bambu no chão e a agitam freneticamente. A parte de cima da vara produz ruídos muito agudos, alguns dos quais inaudíveis ao ouvido humano. O morcego recebe os sinais e voa na direção da vara: bate e geralmente morre”. (31) Há uma superstição popular muito difundida no Brasil que diz que o morcego seria “um rato velho que se transforma em voador”. Eu cheguei a conhecer uma senhora negra que trabalhava como servente num colégio do Rio de Janeiro em 1993. Ela me contou várias vezes que, quando era criança, ouvira tal história de seus parentes mais velhos. Desejando ver pessoalmente a transformação ela capturou um rato adulto e colocou-o dentro de um latão. Passou a alimentar o bicho regularmente e, segundo ela, depois de um tempo o roedor começou a enrugar e criar membranas, coisa que lhe pareceu muito repulsiva. Então ela soltou-o temendo que a transformação se completasse e o bicho saísse voando pela casa. Tentei explicar-lhe que ratos e morcegos são duas espécies distintas, que se reproduzem separadamente; que não eram um mesmo animal que, assim como as lagartas que viram borboletas, sofrem uma transformação radical pelo meio de suas vidas. E também propus que seu rato deveria ter emagrecido e ficado flácido devido a má alimentação. Mas nada disso adiantou: Ela viu. Nem fotos de bebês morcego nem ratos mortos de velhice puderam tirar aquela certeza de sua mente.
 
BERNARD, Raymond. A Terra Oca. Record. 12ª ed. 1999
BROOKESMITH, Peter (org.) Seres Fantásticos e Misteriosos. Círculo do Livro, 1984.
MELTON, Gordon. O Livro dos Vampiros. Ed. Makron.
OLIVEIRA, Carlos Estêvam de. Os Apinajés do Alto Tocantins, 91-92, Boletim do Museu Nacional, VI, n.2, junho de 1930, Rio de Janeiro.

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